Taça Rio: Por que foi importante independente de ser Mundial ou não.

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Taça Rio: Por que foi importante independente de ser Mundial ou não.

Mensagem  Milhouse em 25/12/2015, 9:41 pm

“Não, meus amigos, não se repetiu o 16 de julho de 1950. Desta vez, a sorte não foi madrasta para o futebol do Brasil. Vencemos a Taça Rio, com honras e méritos. Fomos direitinho a ela, e o Palmeiras, hoje, é o clube campeão do mundo. Somente pode ser digno de orgulho de todos os torcedores brasileiros”.

Este é o início da matéria do lendário jornalista Thomas Mazzoni na Gazeta Esportiva no dia seguinte à final da Taça Rio e dá o tom do tamanho que ela teve. Teve um significado enorme para o povo brasileiro que ainda lambia as feridas do Maracanazo e influenciou na criação de campeonatos relevantes. O nível técnico e a representatividade foram altos. Se foi o primeiro Mundial de Clubes, como o presidente da Fifa reconheceu neste sábado, ou não, é irrelevante. Foi, sem dúvida nenhum, um torneio muito importante.

Pela primeira vez na história, clubes de futebol se reuniram para jogar bola com o apoio da Fifa, embora ela não tenha chegado a ser, de fato, a organizadora. O investimento seria realizado a princípio pela Confederação Brasileira de Desportos, mas, na hora H, a conta foi enviada para os representantes brasileiros (Vasco e Palmeiras). A entidade, à época presidida por Jules Rimet, ajudou com o lobby para trazer as equipes estrangeiras e destacando um dos seus homens mais importantes para integrar o comitê organizador.

O italiano Ottorino Barassi foi engenheiro, árbitro e presidente da Federação Italiana de Futebol. Era uma espécie de braço direito de Jules Rimet e guardou a taça da Copa do Mundo em uma caixa de sapatos durante a Segunda Guerra Mundial para protegê-la de saqueadores. Tem uma importância ainda mais ampla porque fundou a Uefa e deu início à Copa dos Campeões da Europa, inspirado pela Taça Rio.

Junto com Rimet, pensou pela primeira vez em um torneio mundial de clubes em 1939, mas os planos de Adolf Hitler para a Europa ficaram no meio do caminho. Durante a Copa do Mundo de 1950, a ideia foi retomada, e o Brasil se tornou uma sede natural porque já tinha a estrutura necessária. O Maracanã e a torcida brasileira haviam impressionado o presidente da Fifa. Eles queriam juntar 16 clubes para o torneio antes de receberem uma injeção de bom senso e perceberem que a Copa havia trazido apenas 13 seleções para o país. Ficou definido, portanto, que o ideal seria juntar os campeões nacionais de Itália, Inglaterra, Portugal, Áustria, Escócia e Espanha, além de dois representantes do país-sede.

Chegamos ao primeiro problema: o Brasil não tinha um campeão nacional. Para contornar isso, várias ideais absurdas foram ventiladas, como um torneio improvisado com os vencedores dos estaduais de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul, mas o calendário não permitia. Presidente do conselho técnico da CBD, José Maria Castelo Branco propôs uma disputa em melhor de três partidas entre o campeão e o vice dos torneios paulista e carioca. Aí o problema seria legitimidade porque abria a possibilidade de nem o campeão estadual representar o país sede. Decidiram, enfim, em um cenário muito polarizado entre Rio e São Paulo, simplesmente apontar Vasco e Palmeiras, os mais recentes ganhadores dos regionais desses estados.

Repentinamente alertados do atraso brasileiro em relação aos outros países, os dirigentes começaram a se movimentar para organizar um campeonato nacional. O ex-presidente da Federação Metropolitana de Futebol, entidade que dirigia o esporte no Rio de Janeiro, Antonio Avelar, levou a Castelo Branco, à frente do futebol brasileiro durante as férias de Mario Polo, uma proposta de certame com 12 clubes, disputado em turno e returno. Para não desagradar demais as federações locais, ele seria alternado anualmente com os estaduais. O presidente do Conselho Técnico prometeu encaminhar a ideia a Mario Polo (presidente da CBD), quando este voltasse de férias, mas o primeiro campeonato com essas características seria a Taça Brasil, que começou a ser disputada apenas em 1959.

Chegou a hora de buscar os clubes europeus, e Barassi teve um companheiro de peso para essa missão. O francês Gabriel Hanot, do jornal L’Equipe e da revista France Football, foi um dos principais promotores do torneio na Europa, e seu relacionamento próximo com Jules Rimet ajudou a dar credibilidade ao projeto, e decisivamente influenciou no comprometimento das federações nacionais. Foi Hanot quem propôs à recém-fundada Uefa a criação de um torneio europeu de clubes e criou o prêmio Bola de Ouro.

Mas nem toda a influência de Hanot convenceu os escoceses a aceitarem o convite, então a organização se voltou para a Iugoslávia. A presença do Estrela Vermelha se tornou importante para a Fifa porque ela queria saber se poderia contar com os integrantes do bloco soviético em seus torneios posteriores, em meio à Guerra Fria. E quase que a CBD estragou tudo porque esqueceu de enviar o confite oficial, uma prova cabal de algumas coisas nunca mudam. O futebol profissional era proibido no governo do marechal Tito, mas nem por isso o clube iugoslavo era menos potente.

O Estrela Vermelha era a base da seleção iugoslava medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948. Foi campeão nacional em 1951 e tri da Copa Marechal Tito, em 1950. O elenco contava com seis jogadores que estiveram no Brasil com a seleção do país na Copa do Mundo de 1950: o zagueiro Stankovic; os meio-campistas Palfi e Jovanovic; e os atacantes Ognajinov, Tomasevic e Mitic.

O Tottenham chegou a ser confirmado como representante da Inglaterra por Barassi, mas os britânicos acabaram não mandando clube para o Brasil. Justificaram a ausência argumentando que o pouco tempo entre a definição do Campeonato Inglês e o início do torneio impossibilitaria o planejamento logístico. Era, também, impossível aos clubes que brigam pelo título recusar todos os convites para partidas internacionais, na expectativa de ganhar a liga e se qualificar a jogar no Brasil. De acordo com A Gazeta Esportiva, a Inglaterra não veio para não colocar em risco o seu prestígio de reis do futebol e por causa de pendências financeiras da Copa do Mundo.

A vaga inglesa passou para a Áustria, e eis que a CBD atacou novamente, ao convidar o Áustria Vienna, terceiro colocado da temporada 1950/51, e não o Rapid Viena, atual campeão. Tentou corrigir o erro, mas o Rapid recusou a solicitação desesperada dos organizadores. Ainda assim, o Áustria tinha um time respeitável, com oito jogadores regularmente convocados à seleção.

A Espanha também deu para trás porque, segundo os jornais da época, estava assustada com uma excursão da Portuguesa pelo país e não queria enviar um time para o abate. Por isso, a França entrou em jogo, com o Nice de Yeso Amalfi, campeão com o mesmo número de pontos do segundo colocado e apenas um a mais que o terceiro e o quarto depois de uma batalha ferrenha pelo título francês.

Restaram três vagas. Uma seria da Itália, país de Barassi. O Milan estava todo animado, mencionou amistosos de preparação e um prêmio de 50 mil cruzeiros para cada jogador, mas desistiu porque tinha que disputar a Copa Latina, que terminaria seis dias antes do início da Taça Rio, e não poderia contar com seus três principais jogadores. Os suecos Gunnar Gren, Nils Liedholm e Gunnar Nordahl, por conta de uma cláusula em seus contratos, tinham a liberdade de desistir de qualquer viagem internacional. Sem eles, o clube seria um saco de pancada. A vaga acabou caindo no colo da Juventus, terceira colocada da temporada 1950/51, também liderada por um trio de estrangeiros: o meia esquerda John Hansen, o meia direita Karl Hansen e o ponta esquerda Karl Praest, todos dinamarqueses. O ataque era complementado por dois jogadores da seleção italiana, Boniperti e Mucinelli. A defesa também era de se destacar, com o goleiro Viola, os defensores Bertucelli, Parola e Manente, e os meio-campistas Mari e Picinnini.

O Sporting, de Portugal, completou a ala europeia da competição. Os Leões sempre fizeram parte das relações de equipes convidadas e poucas vezes tiveram sua participação colocada em dúvida. A equipe treinada pelo inglês Galloway foi soberana em Portugal, terminando o campeonato com 11 pontos de vantagem para o segundo colocado, o Porto. Foram 91 gols em 26 partidas, média altíssima de 3,5 gols por jogo, mesmo para aquela época. Vasques, sozinho, anotou 28, e foi o artilheiro do certame. Ele, Travassos, Canário, os ponteiros Jesus Corrêa e Albano faziam parte da seleção portuguesa.

O outro viria da América do Sul e seria argentino. Só que naquela época a CBD e a AFA haviam acabado de retomar relações depois daquela confusão envolvendo o argentino Battagliero na Copa Roca. Entrou o Nacional do Uruguai, portanto, campeão nacional de 1950 e 1952, mas em 1951 perdeu o título para o Peñarol, a base da seleção uruguaia.

Definidos os oito clubes, a competição passou a enfrentar um problema nominal. Apenas metade dos participantes do Torneio Mundial dos Campeões havia vencido a última liga nacional dos seus países: Nacional, Sporting, Nice e Estrela Vermelha. Isso motivou a CBD a anunciar que, a partir da próxima edição, seria realizado apenas um torneio internacional, e não mais um “torneio de campeões”. A entidade argumentou que às vezes o campeão nacional, à época do certame, está em inferioridade técnica em relação a outros clubes do país, e que os compromissos dos vencedores os impedem de aceitar os convites. Sem essa obrigação, a CBD poderia chamar quem quisesse.

Na realidade, houve um pouco de incompetência para convencer os campeões nacionais dos principais países da Europa a virem para o Brasil, mas a ponderação é que naquela época uma viagem para a América do Sul era muito menos bem quista do que é hoje em dia. Os clubes não estavam acostumados a serem internacionais e o medo de se locomover por horas para um lugar desconhecido era muito maior. A organização trouxe o melhor que conseguiu, e não dá para criticar o nível técnico da competição, com grandes times como o Estrela Vermelha, Sporting, Juventus e os dois brasileiros. Eram, no fim das contas, o Palmeiras das Cinco Coroas liderado por Jair Rosa Pinto e o Vasco de Ademir de Menezes.

Teve, além de tudo, uma importância simbólica muito grande para amenizar a dor do Maracanazo. “Quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo há um ano, no mesmo estádio, todos os jogadores foram crucificados. Alguns mais, alguns menos, mas todos, de um jeito ou de outro, pagaram um preço alto pela derrota. Deus me ajudou e, pouco depois, em 1951, eu tive a chance de fazer o que não consegui em 1950: ser campeão do mundo. De alguma forma, a Taça Rio foi Mundial de Clubes”, disse Jair ao dossiê preparado pelo jornalista Arnaldo Branco Filho, e utilizado pela diretoria palmeirense para tentar a oficialização do título junto à Fifa.

Jair não foi o único a dizer que o Palmeiras foi campeão mundial. A Gazeta Esportiva o definiu assim, tanto na capa quanto dentro de seus textos, e ainda exagerou a festa da torcida palmeirense: “São Paulo inteiro esteve nas ruas, todos os torcedores paulistas, palmeirenses, sampaulinos, corintianos, lusos, ipiranguistas”, escreveu, calculando um milhão de pessoas comemorando o título. Personagens daqueles times, como Boniperti e Amalfi, também consideraram o torneio o primeiro Mundial de Clubes.

Mas a nomenclatura é irrelevante. Foi um torneio relevante, que envolveu homens do primeiro escalão da Fifa e equipes excelentes. De alguma forma, jogou a semente para a criação da Liga dos Campeões e consequentemente da Libertadores – até da Taça Brasil, de alguma forma. Mostrou pela primeira vez que era possível reunir clubes de vários lugares em um único país para jogar futebol a sério e foi essencial para a auto-estima do brasileiro depois da derrota no Maracanã para o Uruguai. É outra discussão se foi menos ou mais importante que as conquistas de Santos, Corinthians, São Paulo, Internacional, Grêmio e Flamengo. O palmeirense da época comemorou como se fosse um mundial e deveria mesmo. Porque independente de qualquer coisa, foi um baita título.
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